Trump foca na base eleitoral do Cinturão da Ferrugem


Decisão de presidente americano para restaurar tarifas a Brasil e Argentina segue cartilha protecionista e visa a segurar votos em quatro estados fundamentais para a sua vitória em 2016. Donald Trump fala a jornalistas no gramado da Casa Branca antes de partir para Londres, onde participará de reunião da Otan
Reuters/Jonathan Ernst
A mudança de rumo do presidente americano, suspendendo a isenção de tarifas de aço e alumínio, surpreende Brasil e Argentina, mas segue a cartilha protecionista que caracteriza o governo Donald Trump desde a sua posse, em janeiro de 2017, não importa qual seja a natureza do aliado externo.
A eleição bate à porta da Casa Branca, com o presidente às voltas com um processo de impeachment que se desenrola na Câmara dos Representantes, mas provavelmente emperrará no Senado, onde os republicanos têm a maioria. As denúncias de abuso de poder desgastam a imagem do presidente, mas basicamente não o ameaçam.
Ficou claro, então, pelas medidas anunciadas nesta manhã, que o foco de Trump está no eleitor do Cinturão da Ferrugem, que compreende estados do Nordeste, dos Grandes Lagos e do Meio-Oeste dos EUA. Mais especificamente os de quatro estados imprescindíveis para a sua vitória em 2016 — Pensilvânia, Ohio, Michigan e Wisconsin.
De janeiro a setembro deste ano, juntos, os quatro estados registraram perdas de 25 mil empregos na indústria estagnada de aço e carvão, setores que o presidente prometeu restaurar. É essa atividade que pressiona Trump e norteia sua agressiva política comercial na direção da reeleição de 2020.
Como observou o jornalista Paul Brandus, fundador do West Wing Reports, em artigo publicado no jornal “USA Today”, uma desaceleração econômica nesses estados do Cinturão da Ferrugem poderia condenar a campanha do presidente em 2020. Daí a presença persistente do presidente em comícios nesses redutos, onde destila a sua retórica mais agressiva.
Trump acusa Brasil e Argentina de manipularem a desvalorização de suas moedas, tornando o dólar mais forte e prejudicando, assim, os agricultores americanos. Aos olhos do governo americano, Argentina e Brasil beneficiaram-se da guerra comercial entre EUA e China, sobretudo, por minar as exportações americanas de soja.
Ao suspender a isenção de tarifas sobre o aço e o alumínio, concedida a aliados como Jair Bolsonaro e Mauricio Macri, que prestes a deixar o governo argentino, Trump se esforça para desviar a atenção do eleitor americano do assunto impeachment. Mas, sobretudo, ele precisa que seu mantra — Torne a América Grande Novamente — reverbere com mais firmeza em sua base eleitoral.