Marcelo Odebrecht é demitido, mas segue como sócio minoritário

Empresa disse que ele foi desligado por ‘recomendação feita pelos monitores externos independentes do MPF e do Departamento de Justiça dos EUA’. Defesa de Marcelo Odebrecht diz que demissão é ‘ abuso de poder’ do presidente da companhia. Marcelo Odebrecht é demitido da empresa, dois anos após deixar a carceragem da PF
A Odebrecht informou nesta sexta-feira (20) que Marcelo Odebrecht foi desligado do grupo, mas segue como sócio minoritário indireto da empresa. Em nota, a assessoria informou que a demissão “atendeu a recomendação feita pelos monitores externos independentes do Ministério Público Federal e do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que atuam na empresa há dois anos e meio”.
A Odebrecht diz que a recomendação foi aceita e aprovada pelo conselho de administração ainda em outubro, no dia 24. No entanto, o prazo de execução valeria até o dia 31 de dezembro deste ano.
Como sócio minoritário indireto, o relacionamento de Marcelo Odebrecht com a empresa “se dará de agora em diante no âmbito dos acionistas, via Kieppe, holding da família controladora”, ainda de acordo com o comunicado.
A empresa não informou o cargo que Marcelo ocupava. Segundo o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, apesar de afastado de qualquer função executiva desde que foi preso, em 2015, Marcelo continuava na folha de pagamentos da empresa com remuneração de R$ 115 mil mensais. O colunista informa ainda que quem demitiu Marcelo foi seu pai, Emílio Odebrecht.
Ainda de acordo com o colunista, a demissão ocorreu por ordem de Emilio Odebrecht, atual mandatário da Kieppe Participações, holding da família que controla a Odebrecht S.A.
Outro lado
A defesa de Marcelo Odebrecht divulgou nota em que afirma que a demissão é “apenas a demonstração inequívoca de mais um ato de abuso de poder do atual presidente da Odebrecht S.A. que, na tentativa de paralisar a apuração pelo Compliance de fatos que lhe atingem e que deveriam estar protegidos por sigilo, retalia o denunciante como forma de intimidá-lo”.
O texto diz ainda: “Marcelo Odebrecht continuará a cumprir o seu acordo e não se furtará em observar e cumprir todas as suas obrigações de colaborador da Justiça e de acionista do Grupo visando a integridade da empresa e de seus integrantes. Os temas afeitos a sua família, indevidamente expostos nesse triste episódio, serão tratados em âmbito próprio.”
O desligamento de Marcelo ocorre três dias depois de a Odebrecht anunciar a troca da presidência do grupo. A empresa, que está em recuperação judicial, anunciou na terça-feira (17) a holding da família que controla o grupo aprovou a saída de Luciano Guidolin da presidência da empresa e sua substituição por Ruy Sampaio, que estava à frente do conselho de administração.
Para o lugar de Sampaio na presidência do conselho de administração da Odebrecht S.A foi aprovado o nome de José Mauro Carneiro da Cunha, que já foi presidente executivo e do conselho da operadora de telefonia Oi.
As mudanças ocorreram às vésperas de uma assembleia de credores marcada para quinta-feira (19) e em meio a uma disputa na família Odebrecht, segundo reportagem publicada pelo “Valor Econômico”.
Prisão, delações e progressão de regime
Marcelo Odebrecht presidiu a construtora por sete anos. Foi preso em junho de 2015, na 14ª fase da Lava Jato, e em 2017, passou a cumprir prisão domiciliar. Em setembro de 2019, depois da decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), Marcelo Odebrecht conseguiu progredir de regime e da prisão domiciliar.
Logo quando deixou a prisão domiciliar, Marcelo visitou a sede da Odebrecht em São Paulo. Na ocasião, a assessoria de imprensa da Odebrecht informou que ele foi visitar amigos que trabalham na empresa.
Marcelo Odebrecht foi condenado por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Com o acordo de delação premiada, pagou multa de mais de R$ 73 milhões e teve a pena reduzida de 31 anos de prisão em regime fechado para dez anos, em diversas etapas.
Com as progressões previstas da pena, em 2025 ele deve estar livre. Terá apenas de informar a Justiça sobre suas atividades.
Marcelo fechou acordo de delação premiada junto com outros 77 executivos e ex-executivos da empresa. As delações envolveram o pagamento de caixa dois e propina a centenas de políticos. “Não existe ninguém no Brasil eleito sem caixa 2. Pode até dizer que não sabia, mas recebeu dinheiro do partido que era caixa 2”, afirmou ele.