Contrária a união com a China, presidente de Taiwan lidera pesquisas

Os taiwaneses irão às urnas em 11 de janeiro, inaugurando o calendário global das eleições mais relevantes do ano. Embora seja 1 pequeno país insular do Sudeste asiático, com 23,8 milhões de habitantes e 36.200 quilômetros quadrados, Taiwan tem grande importância por sua relação ao mesmo tempo intensa e conflituosa com a 2ª maior economia do planeta, a China.

O governo chinês quer Taiwan sob seu controle, com o argumento de que a ilha e o território continental eram 1 só país até 1949. Foi quando o líder comunista Mao Tse Tung tomou o poder e criou a República Popular da China. O então presidente instalado em Pequim, Chiang Kai-shek, buscou abrigo em Taipei, maior cidade da ilha, com seus apoiadores. Transferiu para lá a sede da República da China, nome oficial do país até hoje. Em Pequim, Taiwan é considerada uma “província rebelde”.

A reivindicação chinesa é de que Taiwan tenha a mesma situação de Hong Kong e Macau, dentro da ideia de “1 país, 2 sistemas”. Isso é diferente do modelo político de partido único que vigora na maior parte do território chinês. Funcionam nos 2 territórios diversos partidos, com eleições para a escolha do governo local, semi-autônomo.

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O problema é que, se aderirem a isso, os taiwaneses teriam de abrir mão de ser 1 país independente, algo que nunca houve nos outros 2 territórios. Hong Kong era uma colônia britânica ao se incorporar à China, em 1997. Macau era território português até ser anexado em 1999.

O governo de Taiwan fez 1 acordo informal em 1992 para iniciar conversas com o objetivo de unir os territórios, o que levou à intensificação das relações comerciais –a China é o maior destino das exportações de Taiwan.

Mas hoje a proposta chinesa de união enfrenta grande resistência dos taiwaneses. Demonstração disso é o fato de as pesquisas de intenção de voto apontarem para a liderança da presidente Tsai Ing-wen. O Partido Democrático Progressista, que ela integra, rejeita qualquer negociação para que o país seja unido à China.

PESO DE HONG KONG

Os protestos em Hong Kong iniciados em março por estudantes contra o que consideram tentativa de interferência do governo de Pequim no sistema judicial do território têm sido usados na campanha eleitoral. “A situação de Hong Kong mostra que o sistema de 1 país, 2 sistemas, não funciona”, disse ao Poder360 Bruce Yi Chen, 22 anos, que trabalha voluntariamente na campanha de Tsai (assista no vídeo abaixo). Ele é estudante de ciência política na Universidade de Melbourne, na Austrália, e voltou a Taipei para as férias de verão.

Levantamento de 17 de dezembro do Partido Verde aponta Tsai com a preferência de 54,4% dos eleitores, mais do que o dobro dos 20,4% do principal oponente, Han Kwo-yu, do Partido Nacionalista Chinês, o Kuomintang. Levantamento de 14 de dezembro do jornal United Daily News mostra ambos com 48% e 22%, respectivamente.

Tsai esteve longe, porém, de manter uma posição política confortável desde que foi eleita presidente, em 2016. Nas eleições municipais de 2018, seu partido perdeu 7 das 13 cidades que governava e viu o número de eleitores cair dos 56% da eleição anterior para 39%. Até maio estava atrás de Han nas pesquisas e parecia fadada a 1ª chefe de Estado que não conseguiria a reeleição. As expectativas eram de que ela não conseguiria nem sequer a indicação do partido para disputar a reeleição.

A percepção dos eleitores quanto às relações com a China e os protestos deste ano em Hong Kong, a pouco mais de uma hora de voo de Taiwan, parecem ter sido decisivos para a virada. O conflito no território semi-autônomo chinês teve origem no fato de 1 cidadão de lá ter matado a namorada, em fevereiro, em viagem de férias a Taiwan. De volta a Hong Kong, ele confessou o crime. Mas não poderia ser extraditado por falta de tratado entre os 2 territórios.

O governo de Hong Kong propôs então ao Legislativo local 1 projeto para enviar suspeitos de crimes à China. A proposta foi vista como uma ameaça à independência do território pelo risco de perseguição política, algo que o governo chinês nega. Os protestos se intensificaram, envolvendo principalmente estudantes universitários, grande parte deles cidadãos de Taiwan. Foi então que Tsai e seu partido recuperaram popularidade.

O Partido Nacionalista tem uma posição mais flexível em relação à negociação com a China para a unificação. Han tem família na China continental. E disse, segundo a revista Economist, que insistir na independência da ilha é “mais assustador que sífilis“. Na avaliação dele, a prosperidade de Taiwan depende do acesso ao imenso mercado interno da China continental.

Essa posição do Kuomintang não é de hoje. Era o partido que estava no poder em 1992 quando houve o acordo informal para iniciar as conversas com esse objetivo. E também governava o país em 2015, quando o então presidente de Taiwan, Ma Xi-Jean, reuniu-se em Cingapura com o presidente chinês, Xi Jinping. Foi o 1º e único encontro até hoje entre líderes dos 2 países.

PASSADO AUTORITÁRIO

Paradoxalmente, o Kuomintang era o partido de Chiang Kai-shek, que promoveu a ruptura entre os 2 territórios. Ao se instalar em Taiwan, ele implantou 1 sistema político autoritário, de partido único, que se diferenciava muito pouco do que faziam os comunistas no continente. Somente em 1975, depois da morte de Chiang, foram iniciadas reformas para a democratização de Taiwan.

Hoje Taiwan é 1 país democrático. A ponto de no palácio presidencial em Taipei, onde Tsai despacha, os visitantes terem acesso a uma exposição de fotos sobre protestos realizados nos últimos anos –todos contra o governo.

O país tem 1 grande conjunto de jornais e emissoras de TV independentes e críticas do governo. Além dessa vigilância, existe a Taiwan Foudation for Democracy, criada pelo Executivo, mas hoje uma instituição independente, financiada pelos partidos políticos do país.

O vice-presidente da Fundação, Yeh-Chung Lu, disse ao Poder360 que Taiwan é hoje o país mais democrático da Ásia. “A Coreia do Sul vem em 2º lugar. Mas lá o sistema político faz com que o partido vencedor das eleições tenha muito poder, enquanto aqui é necessário construir uma coalização, em que mais vozes são ouvidas”, disse ele, que é também professor do Departamento de Diplomacia da Universidade Chengchi, em Taipei.


O jornalista Paulo Silva Pinto viajou a Taipei a convite do governo de Taiwan