Taiwan mantém só 15 países aliados oficiais depois de perder 6

A presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, busca a reeleição no dia 11 de janeiro, em meio a 1 cenário difícil de relações externas. Nos 4 anos de seu governo, o país perdeu 6 aliados. Mantém hoje relações diplomáticas formais com apenas 15 países. Mas a razão disso, a pressão da China sobre o país, é também sua principal força eleitoral. Atualmente, ela lidera as pesquisas de intenção de voto.

As defecções mais recentes foram em setembro. Romperam relações formais com Taiwan as ilhas Salomão e Kiribati, 2 minúsculos países insulares no Pacífico Sul. Os que restam são também economias pouco significativas no cenário global. Não há outro país no mundo desenvolvido com tão poucos aliados diplomáticos oficiais. O único aliado diplomático na América do Sul é o Paraguai. O presidente Mario Abdo Benítez disse em visita a Taipei em outubro que não pretende romper relações com o país asiático. Taiwan tem PIB (Produto Interno Bruto) de US$ 586 bilhões (20º do mundo) e PIB per capita de US$ 25.000 (34º).

O motivo do isolamento é que a China, 2ª maior economia do mundo, recusa-se a estabelecer relações com países que mantêm embaixadas em Taipei, capital de Taiwan. Considera a ilha uma “província rebelde”, que deveria se incorporar ao governo de Pequim. O boicote diplomático às nações que deixam de reconhecer isso é a maior pressão exercida pelos chineses na tentativa de forçar a unificação.

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O que salva Taiwan no cenário global é manter relações não-diplomáticas com 47 países, incluindo o Brasil e a maior economia do mundo, os EUA. Essas nações abrigam escritórios comerciais e culturais de Taiwan –no Brasil há 2, em Brasília e em São Paulo. Há também escritórios desses países em Taipei que, em muitos casos, não deixam nada a dever a embaixadas. O dos norte-americanos, por exemplo, tem 100 funcionários. Com essa extensa rede de relações extra oficiais, o Ministério das Relações Exteriores de Taiwan tem estrutura semelhante em porte à do Itamaraty.

No Brasil, os representantes de Taiwan não são recebidos no Ministério das Relações Exteriores. Mas conversam com empresários e com congressistas. Em março de 2018, o então deputado Jair Bolsonaro visitou Taiwan em uma viagem à Ásia que incluiu também o Japão e a Coreia do Sul. A viagem causou grande insatisfação na diplomacia chinesa.

O país também mantém relações comerciais com a China, de longe o principal parceiro. Em 2018, Taiwan exportou para lá US$ 96,7 bilhões e para Hong Kong, US$ 41,6 bilhões (41,2% do total). Em 3º lugar vieram as vendas para os EUA, com US$ 39,7 bilhões. A maior parte da produção enviada para fora é de alto valor agregado: semicondutores (chips) e computadores completos.

As vendas do Brasil para Taiwan cresceram 44% de janeiro a novembro de 2019, mas ainda são modestas: US$ 1,4 bilhão. As vendas de Taiwan para o Brasil foram de US$ 2 bilhões. A China, principal destino das exportações brasileiras, comprou US$ 57,6 bilhões. Vendeu para o Brasil US$ 32,7 bilhões.

A China não tem escritório comercial e cultural de Taipei, nem abriga representação de qualquer tipo. “Empresários industriais de Taiwan mantêm 1 escritório em Pequim. Nós usamos a intermediação deles em alguns casos para tratar de certos temas com o governo chinês”, disse ao Poder360 Lee Li-Jane, vice-ministra do Conselho de Assuntos do Continente. As relações com a China não são tratadas pelo Ministério das Relações Exteriores. Há voos entre os 2 territórios e intensa troca de turistas e empresários. Mas funcionários públicos de 1 país são vetados no outro.

EX-MEMBRO DA ONU

Taiwan já foi uma potência diplomática, 1 dos 5 países com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas). Mas em 1971 a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução reconhecendo a República Popular da China como única representante do povo chinês, ao mesmo tempo em que expulsou Taiwan. EUA, Japão e Brasil, entre outros países, votaram contra a medida. As lista dos favoráveis à medida incluiu quase todos os países europeus, México, Índia e União Soviética.

Logo depois, porém, chegou-se à conclusão na Casa Branca de que a China comunista, com sua população, território e potencial econômico, não poderia ser ignorada. Em 1972, o presidente norte-americano Richard Nixon visitou Pequim. O governo brasileiro também buscou aproximação, ainda no auge do regime militar. Em 1974, estabeleceu uma embaixada em Pequim e transformou as relações com Taiwan em não-diplomáticas. Antecedeu nessa ação os EUA, que só vieram a fazer a mesma coisa em 1979.

Uma década e meia depois, houve aproximação também entre a China e Taiwan. Em 1992, foi firmado 1 acordo informal para estabelecer negociações com vistas à integração. Desde que Tsai está no poder, porém, essas conversas foram suspensas. Há 1 ano, o presidente chinês, Xi Jinping, cobrou que fossem retomadas. Isso ajudou a fortalecer retomar a popularidade de Tsai entre os eleitores que rejeitam a aproximação com a China.

OPORTUNIDADE PERDIDA

Um especialista brasileiro em assuntos chineses que prefere não ser identificado, por não querer se indispor com o governo do país, afirmou ao Poder360 que Taiwan perdeu a chance de buscar reconhecimento como país na década de 1980. Naquela época, ainda tinha peso econômico relativamente grande –era 1 dos Tigres Asiáticos. Hoje, depois de 4 décadas de forte crescimento chinês, esse peso foi ofuscado. Taiwan tem renda per capita 2,5 vezes a do continente e metade da registrada em Hong Kong.

Atrapalha o reconhecimento por outros países o fato de a ilha se intitular oficialmente República da China em vez de Taiwan –esse é 1 argumento usado em Pequim para considerar o país parte de seu território. A vice-ministra Lee explicou que Chiang Kai-shek tomou essa decisão para manter a fidelidade de seu Exército. Os soldados tinham família no continente. Manter o nome original do país era uma sinalização de voltariam a rever os pais e outros familiares com a possibilidade de reconquista do território –ele também mantinha aceso o sonho da reunificação. Caso adotasse outro nome e assumisse ser outro país, isso seria eliminado.

PARAGUAI E MERCOSUL

O fato de o Paraguai manter relações diplomáticas com Taiwan impede hoje negociações entre o Mercosul e a China. Não seria possível, por exemplo, 1 acordo de livre comércio como o que foi assinado entre o bloco e a União Europeia, ainda pendente de ratificação. Isso não chega a ser 1 problema porque empresários industriais brasileiros resistem a reduzir as barreiras entre Brasil e China, sob argumento de que, antes disso, é preciso melhorar a competitividade dos produtos daqui. No futuro, porém, isso tende a ser 1 obstáculo nas relações entre Brasil e China. Em novembro, o ministro Paulo Guedes (Economia) disse que há intenção de estabelecer 1 acordo de livre comércio entre Brasil e China, sem deixar claro quando seria.

A pressão para que o Paraguai troque Taiwan pela China vai, porém, muito além do Mercosul. Para a China, é tudo ou nada: o país se recusa até mesmo a manter em Assunção 1 escritório comercial como o que Taiwan mantém em Brasília. Para  manter as relações com o país sul-americano, Taiwan oferece 1 grande pacote de cooperação. Há quase 2.000 estudantes paraguaios com bolsas em universidades de Taiwan.


O jornalista Paulo Silva Pinto viajou a Taipei a convite do governo de Taiwan